segunda-feira, 27 de abril de 2015

Amor na Era da Sobrecarga

Ao ouvir o psicanalista Ivan Capellato, na palestra que se seguirá, houve em mim uma espécie de redenção.
É muito bom poder compreender que algo não acontece somente com você.
Numa fala muito divertida, com toques de ironias o terapeuta vai esmiuçando como se dão as fases do desenvolvimento humano e como são travadas suas relações afetivas. Desvendando algumas patologias afetivas, como a psicose e a psicopatia e a neurose que não vem a ser um mal. Ele nos dá pistas  do que viria a ser uma relação saudável. E, naturalmente, mostrando que amor saudável não vem pré-fabricado, é construído no dia a dia e com paciência.
Segundo o psicanalista, só pode existir amor, quando existe o medo da perda. Naturalmente, não o medo que paralisa ou aprisiona. É tranquilizador quando você se entende que você não é a única pessoa no mundo que sente todo esse misto de sentimento como raiva, mesmo amando muito, sente desespero, quando tem que cuidar do filho pequeno, que mais parece um monstrinho, pois Capelatto não trata apenas de um tipo de amor. Enfim, há um alívio muito grande em não se sentir só, num torvelinho de emoções que envolve o tão desejado amor.
Vale a pena dar atenção à seguinte fala do Dr. Capellato.


terça-feira, 3 de março de 2015

Abrirei minhas postagens com um poema que descreve muito bem como me sinto grande parte das vezes quando estou no meio de pessoas que sempre parecem saber de tudo .

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa PESSOA, F. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática. 1944 (imp. 1993). p. 312.